Minha sogra veio correndo de Porto Alegre pra cá. Chegou no mesmo dia do ocorrido, quase meia noite. Veio pra ajudar a gente nos primeiros dias. Serei grata a ela pra sempre, porque ela estar aqui comigo foi primordial. Nos primeiros dias você parece ainda entorpecido, como se estivesse andando em câmera lentra. Eu cochilava durante a noite e acordava várias vezes, assustada. E sempre, sempre, o primeiro pensamento, um segundo depois, é a situação toda.
No dia seguinte, teve a cremação. Eu também não fui. Chorei muito, mas não tava me sentindo bem. Meu pai e meu irmão me aconselharam a ficar em casa, e eu fiquei. Consegui tomar uma canja, eu jã não comia desde o dia anterior e fiquei por aqui mesmo. Minha sogra ficava o tempo todo comiga, conversando, dando colo quando eu chorava, me contando como ela tinha superado a morte da mãe quando ainda era muito jovem, a morte do pai e do irmão mais recentes e eu tentava assimilar tudo aquilo na esperança de me sentir melhor. Mas nada parecia me dar esperanças de que algo ia melhorar.
Eu só conseguia pensar que nada mais seria como antes. Que tudo tinha perdido a graça, a cor, e que eu jamais seria feliz novamente. Pensava que nunca mais ia conseguir sorrir de verdade, nunca mais ia conseguir ouvir música ou ver um filme. E chorava chorava e chorava. E sentia falta. Passava pelo quarto vazio, sem ela, e sentia um aperto enorme no peito. E os primeiros dias foram assim. Não coloquei o pé na rua, fiquei deitada a maior parte do tempo, com a cabeça cheia dos acontecimentos do último dia de vida da minha mãe. Isso tudo ficava se revivendo segundo após segundo. Minha cabeça chegava a doer com esses pensamentos que eu tentava afastar mas não conseguia. E assim foram os primeiros dias. Choro, pensamentos circulares repetitivos e dolorosos me assombrando. E a preocupação com meu pai, que estava muito abafado, choroso, de dar dó mesmo.
Minha sogra ficou até o sétimo dia. Não houve missa, meu pai achou melhor assim. Ele disse que missa de sétimo dia parece cutucar uma ferida ainda tão aberta e recente, e achamos melhor não contestar. Mas no sétimo dia, fomos à missa às seis da manhã, mais ou menos a hora em que ouvimos a noticia sete dias antes. Fomos e levamos uma rosa branca por cada um de nós. E ao final da missa, deixamos as rosas, cada um, aos pés de Nossa Senhora. Horas depois da missa minha sogra foi pro aeroporto e eu desabei a chorar. Me senti sozinha. E nesse dia, não consegui nem sair da cama. Deitei com a roupa tinha ido à missa, não almocei, não lanchei, fiquei bolando na cama tentando dormir, tentando ver se dormindo os pensamentos repetitivos me deixavam em paz. Mas não deixaram. Foi um dia difícil. Bem difícil.
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