
30 de outubro de 2013. Eu ali, na porta daquela uti com o Filipe e com o meu pai, ouvindo o que você nunca gostaria de escutar: sua mãe se foi. Na hora, fiquei entorpecida, com a sensação de que aquilo não tava acontecendo comigo. Parecia que eu estava fora do meu corpo, olhando o que estava acontecendo. Eu ouvia a médica falar e não conseguia ter reação nenhuma mesmo que por dentro estivesse gritando. Só mesmo um torpor pra explicar o fato de não chorar, gritar e sair quebrando tudo pela frente.
Meu pai sentou e soltou um suspiro longo, profundo, levou à mão ao peito, coisa típica de quem tá muito angustiado. Me segurei no Filipe e sai dali. Fui pro corredor do hospital e me encostei na parede. O corredor ainda estava vazio, era muito cedo da manhã. Fiquei sei lá quanto tempo encostada naquela parede sem acreditar que estava mesmo vivendo tudo aquilo. Pôxa, minha mãe tinha ido pra lá horas antes e a gente achou que seria só um susto. Mas dessa vez não foi. Meu pai começou a ligar pros meus irmãos e nenhum dos dois antendia. Ligou também pro plano funerário pra alguém ir nos encontrar lá e tomar as decisões de ordem prática. Pedi ao Filipe pra ligar pra uma amiga nossa, que é como da família pra ir me buscar e me levar em casa pra escolher uma roupa pra mamãe. Essa é uma situação que parece arrancar seu coração do peito: escolher a útima roupa que a pessoa que você mais ama vai usar. Inexplicável.
Antes de sair uma enfermeira me chamou na porta da uti pra entregar os pertences da paciente. Em um saco lacrado, um colar com pingente, a aliança e o vestidinho que ela estava usando. Quase não consigo segurar a caneta tamanha era a minha tremedeira.
Depois de um tempo, o corpo foi liberado e levado a morgue do hospital. E eu, que sempre me achei frouxa fiz o que não me imaginava capaz: entrei lá, toquei na minha mãe, falei com ela, chorei chorei chorei, beijei, me despedi e fui embora. Fui pra casa e não sai mais naquele dia. Não, eu não fui pro velório. Tive a impressão que ia me fazer mais mal ainda. Ficar lá o dia inteiro, olhando minha mãe de um jeito que eu não queria ver, ou ficar recebendo e falando com as pessoas...não, não senti que devia ir e não fui. Fiquei em casa com o Filipe Não ia haver enterro. Ela seria cremada no dia seguinte. Meu pai resolveu assim, porque era o que ela dizia que queria. Lá pras tantas meu pai me liga. E diz: " ela tá tão bonitinha, arrumaram ela toda, com a roupinha que tu escolheu..." e ai começou a chorar e desligou. Isso terminou de arrancar meu coração do peito. Eu tava sofrendo horrores, chorando também, mas ver meu pai chorar me doeu ainda mais. Vi ali que o que a gente ia enfrentar ia ser MUITO difícil MESMO.
Ai meu irmão ligou perguntando se eu podia arrumar o quarto e tirar as coisinhas da mamãe das vistas pro meu pai nao sofrer mais. Ninguém precisa ver nada pra sofrer, mas ele achou que ficar ali por cima as coisas do jeito que ela deixou antes de ser levada ao hospital, podia ser ainda pior. Guardei tudo, e aproveitei pra fazer uma limpa nos milhões de remédios. Separei os vencidos dos bons pra ir pra doação. Eles chegaram do velório e ali começava a pior e mais difícil tarefa: enfrentar a vida sem a presença marcante da minha mãe. É a hora que você pára e pensa: acabou. E agora?
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