2 de dez. de 2013

Surreal

E eu ficava evitando entrar no quarto antes dos meus pais e agora do meu pai somente. Evitava até olhar pra lá quando passava pelo corredor. Toda vez que entrava e sentava na cama sem ela estar lá, pra fazer algum comentário ou brincadeira, doía. Doía mesmo. Tudo parecia surreal. 
Tão surreal quanto falar pra alguém que a mamãe tinha morrido. Tem gente que me conhece que até hoje não sabe. Não contei no Facebook. não sai ligando pra ninguém pra contar. As palavras quando saiam da minha boca - e até hoje um mês depois - pareciam doer, e pior, não pareciam mesmo verdade. Então preferi me isolar. Não atendia telefone, não respondia torpedo, nada de rede social. Fiquei aqui, no meu canto, curtindo a minha dor. Não tava afim de ouvir aquelas frases feitas que as pessoas dizem nessas horas  e que mesmo sabendo que a pessoa tá  bem intencionada você tem vontade de mandar ela se calar. 

Meu irmão mais novo ficava dizendo que eu precisava sair de casa, que precisava fazer alguma coisa, que precisava sair do buraco. Que a mamãe nao ia gostar de me ver desse jeito. E nisso ele tinha e tem razão. Sempre penso que se ela pudesse me ver chorando, com dores de cabeça de tanto chorar, ia me dar uma bronca, porque ela era uma mulher forte e que sempre me empurrou pra frente, nunca me deixou cair e me entregar. Cada vez que pensava isso, sentia uma fagulha de esperança que pela minha mãe e pelo que ela sempre me ensinou na vida, eu ia conseguir. Mas em seguida algo já me deixava triste novamente, e assim eu ia.

 Uns dias depois, foram buscar as cinzas. Assim que chegaram com aquele pacotinho com o nome dela, desabei a chorar. Como resolver isso na cabeça? Como elaborar que uns dias atrás, minha mãe estava aqui comigo, e hoje, ela estava em pacotinho que pesava 1,3 quilos? É muito confuso, pelo menos pra mim. Meu pai comunicou a gente que gostaria de jogar as cinzas em uma praia que a gente sempre frequentou, e que segundo ele, eles iam para namorar. Nós concordamos. Mas até que fosse combinado um dia pra ir lá, ele colocou as cinzar em cima do armário da sala e disse: vou deixar ela aqui em cima, dominando a casa. 

Uns 12 dias depois, resolvi sair um pouco. Fui ao homeopata que eu já tinha ido uma vez, fazer florais de Bach. Fui atrás de florais porque eu me sentia precisando de alguma ajuda. Ele me passou o floral e também um remédio  natural  pra ansiedade e problemas de sono. Comecei a tomar na esperança que me fizesse algum bem. Não queria tomar remédio alopático, não queria dopar a minha dor. Achei que ela devia ser vivida e superada, porque se eu a dopasse, podia voltar lá na frente de forma pior. 

Nesse mesmo dia meu irmão resolveu que mesmo sem clima ia fazer o aniversário de seis anos do meu sobrinho e pediu pra que eu o ajudasse a organizar tudo e assim tirar meu foco do sofrimento e tentar pensar em coisas mais alegres. E eu topei.

......

Aquele momento em que você acorda e por um segundo parece que o mundo ainda é o mesmo de sempre, que tudo está em seu devido lugar. Mas basta um segundo pra você lembrar que não, que o mundo como você connhecia, não mais existe. E aí, levantar se torna tarefa das mais difíceis. Levantar pra quê? Pra ter outro dia vazio e cinzento?

Desamparo

Desamparo : s.m. Ação ou efeito de desamparar; abandono. Falta de auxílio ou de proteção. Falta de meios. Sinônimo de desamparo: abandono, desabrigo, desarrimo e orfandade


E era assim que eu me sentia. Abandonada. Sozinha. Desamparada. Chorava me perguntando porque ela tinha ido e me deixado aqui sozinha.

A sensação de perder a mãe talvez seja assim pra todo mundo. Você sente que agora está sozinho, que não tem mais aquela pessoa que sempre cuidou de você com o maior amor possível. Eu pensava: e se eu ficar doente, quem vai cuidar de mim? Mesmo sabendo que eu sou adulta e que quando eu fico doente, ou tenho dor de garganta, febre sei lá, geralmente já sei o que fazer, tomo o remédio e pronto. Mas você sente que não tem mais quem cuide de você. E isso pode parecer injusto pra quem tá do teu lado e te ama, como meu pai, irmãos, namorido, sobrinha e etcs. Mas por mais injusto que pudesse parecer, o que eu sentia era que nenhuma pessoa parecia servir pra compensar  a dor e o vazio. Sim, porque ninguém realmente vai ocupar o vazio. Eu e minha mãe éramos muito próximas. A gente tinha nossos problemas porque éramos bem diferentes, mas eu contava tudo pra ela. Coisas sérias, bobagens...tudo que eu comprava ia lá mostrar pra ela e por aí vai. Fora a convivência tão próxima o tempo todo. E ai, como pensar que isso nunca mais ia acontecer, que tudo que eu fizesse na vida dali pra frente não ia poder contar com e para a minha mãe sem me acabar de chorar?

Só sei que cada vez que eu pensava: putz, eu não tenho mais mãe, sentia uma espécie de pena de mim mesma. E chorava. E me perguntava ainda, por que ela tinha ido embora e me deixado aqui sozinha. E tentava pensar que ela não tava bem, tava sofrendo, doente, e que descansou do sofrimento. Mas não me convencia. É que pra mim, a única opção deveria ser estar aqui, comigo, e bem de saúde. Mas né, as coisas não são como a gente quer. E por mais que a gente saiba disso, é nessas horas que esse tipo de verdade cai da forma mais cruel: você não pode evitar que sua mãe se vá deixando o mundo um lugar muito difícil de se viver.

Os primeiros dias

Minha sogra veio correndo de Porto Alegre pra cá. Chegou no mesmo dia do ocorrido, quase meia noite. Veio pra ajudar a gente nos primeiros dias. Serei grata a ela pra sempre, porque ela estar aqui comigo foi primordial. Nos primeiros dias você parece ainda entorpecido, como se estivesse andando em câmera lentra. Eu cochilava durante a noite e acordava várias vezes, assustada. E sempre, sempre, o primeiro pensamento, um segundo depois, é a situação toda.
No dia seguinte, teve a cremação. Eu também não fui. Chorei muito, mas não tava me sentindo bem. Meu pai e meu irmão me aconselharam a ficar em casa, e eu fiquei. Consegui tomar uma canja, eu jã não comia desde o dia anterior e fiquei por aqui mesmo. Minha sogra ficava o tempo todo comiga, conversando, dando colo quando eu chorava, me contando como ela tinha superado a morte da mãe quando ainda era muito jovem, a morte do pai e do irmão mais recentes e eu tentava assimilar tudo aquilo na esperança de me sentir melhor. Mas nada parecia me dar esperanças de que algo ia melhorar.
Eu só conseguia pensar que nada mais seria como antes.  Que tudo tinha perdido a graça, a cor, e que eu jamais seria feliz novamente. Pensava que nunca mais ia conseguir sorrir de verdade, nunca mais ia conseguir ouvir música ou ver um filme. E chorava chorava e chorava. E sentia falta. Passava pelo quarto vazio, sem ela, e sentia um aperto enorme no peito. E os primeiros dias foram assim. Não coloquei o pé na rua, fiquei deitada a maior parte do tempo, com a cabeça cheia dos acontecimentos do último dia de vida da minha mãe. Isso tudo ficava se revivendo segundo após segundo. Minha cabeça chegava a doer com esses pensamentos que eu tentava afastar mas não conseguia. E assim foram os primeiros dias. Choro, pensamentos circulares repetitivos e dolorosos me assombrando. E a preocupação com meu pai, que estava muito abafado, choroso, de dar dó mesmo. 
Minha sogra ficou até o sétimo dia. Não houve missa, meu pai achou melhor assim. Ele disse que missa de sétimo dia parece cutucar uma ferida ainda tão aberta e recente, e achamos melhor não contestar. Mas no sétimo dia, fomos à missa às seis da manhã, mais ou menos a hora em que ouvimos a noticia sete dias antes. Fomos e levamos uma rosa branca por cada um de nós. E ao final da missa, deixamos as rosas, cada um, aos pés de Nossa Senhora. Horas depois da missa minha sogra foi pro aeroporto e eu desabei a chorar. Me senti sozinha. E nesse dia, não consegui nem sair da cama. Deitei com a roupa tinha ido à missa, não almocei, não lanchei, fiquei bolando na cama tentando dormir, tentando ver se dormindo os pensamentos repetitivos me deixavam em paz. Mas não deixaram. Foi um dia difícil. Bem difícil.

O dia em que o mundo perdeu a cor



30 de outubro de 2013. Eu ali, na porta daquela uti com o Filipe e com o meu pai, ouvindo o que você nunca gostaria de escutar: sua mãe se foi. Na hora, fiquei entorpecida, com a sensação de que aquilo não tava acontecendo comigo. Parecia que eu estava fora do meu corpo, olhando o que estava acontecendo. Eu ouvia a médica falar e não conseguia ter reação nenhuma mesmo que por dentro estivesse gritando. Só mesmo um torpor pra explicar o fato de não chorar, gritar e sair quebrando tudo pela frente.

Meu pai sentou e soltou um suspiro longo, profundo, levou à mão ao peito, coisa típica de quem tá muito angustiado. Me segurei no Filipe e sai dali. Fui pro corredor do hospital e me encostei na parede. O corredor ainda estava vazio, era muito cedo da manhã. Fiquei sei lá quanto tempo encostada naquela parede sem acreditar que estava  mesmo vivendo tudo aquilo. Pôxa, minha mãe tinha ido pra lá horas antes e a gente achou que seria só um susto. Mas dessa vez não foi. Meu pai começou a ligar pros meus irmãos e nenhum dos dois antendia. Ligou também pro plano funerário pra alguém ir nos encontrar lá e tomar as decisões de ordem prática. Pedi ao Filipe pra ligar pra uma amiga nossa, que é como da família pra ir me buscar e me levar em casa pra escolher uma roupa pra mamãe. Essa é uma situação que parece arrancar seu coração do peito: escolher a útima roupa que a pessoa que você mais ama vai usar. Inexplicável. 
Antes de sair uma enfermeira me chamou na porta da uti pra entregar os pertences da paciente. Em um saco lacrado, um colar com pingente, a aliança e o vestidinho que ela estava usando. Quase não consigo segurar a caneta tamanha era a minha tremedeira. 
Depois de um tempo, o corpo foi liberado e levado a morgue do hospital. E eu, que sempre me achei frouxa fiz o que não me imaginava capaz: entrei lá, toquei na minha mãe, falei com ela, chorei chorei chorei, beijei, me despedi e fui embora. Fui pra casa e não sai mais naquele dia. Não, eu não fui pro velório. Tive a impressão que ia me fazer mais mal ainda. Ficar lá o dia inteiro, olhando minha mãe de um jeito que eu não queria ver, ou ficar recebendo e falando com as pessoas...não, não senti que devia ir e não fui. Fiquei em casa com o Filipe Não ia haver enterro. Ela seria cremada no dia seguinte. Meu pai resolveu assim, porque era o que ela dizia que queria. Lá pras tantas meu pai me liga. E diz: " ela tá tão bonitinha, arrumaram ela toda, com a roupinha que tu escolheu..." e ai começou a chorar e desligou. Isso terminou de arrancar meu coração do peito. Eu tava sofrendo horrores, chorando também, mas ver meu pai chorar me doeu ainda mais. Vi ali que o que a gente ia enfrentar ia ser MUITO difícil MESMO. 
Ai meu irmão ligou perguntando se eu podia arrumar o quarto e tirar as coisinhas da mamãe das vistas pro meu pai nao sofrer mais. Ninguém precisa ver nada pra sofrer, mas ele achou que ficar ali por cima as coisas do jeito que ela deixou antes de ser levada ao hospital, podia ser ainda pior. Guardei tudo, e aproveitei pra fazer uma limpa nos milhões de remédios. Separei os vencidos dos bons pra ir pra doação. Eles chegaram do velório e ali começava a pior e mais difícil tarefa: enfrentar a vida sem a presença marcante da minha mãe. É a hora que você pára e pensa: acabou. E agora? 

Eu


Que ironia. Há tempos eu ensaiava voltar à escrever - coisa que sentia falta - e nunca deu muito certo. E agora, que aqui estou, é pelo pior motivo de todos. Pois é. Minha mãe se foi. E desde o fatídico dia, me faço essa pergunta: E agora?
E agora o que será de mim? E agora como me acostumar a viver sem a pessoa que sempre foi super presente na minha vida desde que comecei a enxergar, lá nos primeiros dias de vida? Como? Ainda não sei a resposta.
Resolvi criar o blog agora mesmo, em mais uma noite insone. Hoje, madrugada de domingo pra segunda, tive o ímpeto de escrever sobre essa dor que há um mês vem me dilacerando. Escrever nem sei pra quem. Pra mim mesma. Espero que botar pra fora tudo que estou sentindo e pensando, sirva como um catalisador dessa dor, que botar tudo pra fora, tenha o efeito de desintoxicar minha alma.
De repente esse blog se transforma numa homenagem â minha mãe, que era uma mulher incrível e única. Claro, todos os filhos acham isso das suas mães, né? Mas ela era mesmo incrível e única. Vira e mexe eu dizia pra ela que se ela não existisse, a gente tinha que mandar fazer uma. E logo ela, que não gostava " dessas coisas de internet" vai ganhar uma homenagem no mundo virtual.
Mas enfim. Minha idéia é jogar pra fora o que tá me maltratando. Agora que fez um mês talvez eu consiga fazer isso sem que pareça estar cutucando essa ferida ainda aberta, que embora todo mundo diga que um dia cicatriza, no momento parece que vai sangrar pra sempre.